Moçambique NÃO É o país no mundo mais amigo do ambiente

Quando no dia 26 de Abril a Lusa noticiou: “Moçambique é o país do mundo mais amigo do ambiente“, – notícia que foi logo amplamente difundida especialmente no mundo lusófono – o nosso queixo caiu.

A meia dúzia de linhas de corpo de notícia que acompanharam o vistoso cabeçalho desse artigo da agência de notícias portuguesa citaram como fonte um ranking da Moneysupermarket.com – empresa que opera o portal britânico que lhe dá o nome, e cujo objecto é a indexação/revenda de serviços como seguros, empréstimos, cartões de crédito e outros, mas que a Lusa optou por chamar de “consultora britânica”.

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Se nos pedissem para adivinhar qual o país no mundo que é mais amigo do ambiente de acordo com um qualquer estudo recente de uma qualquer organização competente, logicamente procuraríamos responder partindo do princípio que o país em questão seria aquele cujo esforço para respeitar o ambiente e fomentar boas práticas ambientais lhe valeria o título. Nesse prisma, que julgámos ser o único plausível para conferir tal rótulo, Moçambique não é certamente o melhor amigo do ambiente. Aliás, figurativamente falando, o Ambiente é o miúdo que toda a gente goza lá na escola. Na turma dele ele até tem alguns amigos, mas mesmo esses gozam com ele. Moçambique é de outra turma. Não é seu amigo. Só o conhece “de vista”.

Mas analisemos mais cuidadosamente este lamentável episódio:

Para começar, o título sensacionalista dado à notícia difere do seu conteúdo. O ranking da Moneysupermarket.com não é de quais os países que são mais amigos do ambiente, é de quais os países cujos cidadãos têm menos impacto sobre o ambiente, o que é significativamente diferente! Ainda assim, em nossa opinião, Moçambique encabeçar essa lista é anedótico, e só é possível fruto da utilização de critérios que talvez até se adequem para quantificar os impactos da acção humana sobre o ambiente nos países ditos desenvolvidos, mas claramente não servem a realidade africana. A parca informação disponibilizada pela Moneysupermarket.com em relação a metodologia, bem como a credibilidade de algumas fontes usadas para compilar o ranking são evidência do que argumentamos.

Os critérios da Moneysupermarket.com

O ranking foi calculado com base em 7 critérios: percentagem de Energia Verde em relação ao total de energia consumida; consumo energético per capita, emissões de CO2 per capita, tratamento de águas residuais, resíduos sólidos municipais (kg/ per capita/ por dia), poluição atmosférica e desflorestação.

Energia verde

O documento não determina o que é energia verde nem indica a fonte para os seus dados. Barragens são energia verde? Termoeléctricas também? Certo é que, de acordo com os dados do ranking, 99.87% da energia que consumimos é “verde”.

Consumo energético

Exemplo da disparidade do que explicámos há pouco: no primeiro mundo, um baixo consumo per capita indica um uso racional e bem sucedido do recurso, em Moçambique (e na maioria dos países ditos em via de desenvolvimento) esse baixo consumo é resultado de uma taxa de electrificação baixa. Não é eficiência. O problema é que o baixo consumo energético calculado é falso, porque outros recursos naturais são depredados para colmatar essa lacuna.

Neste critério, mais uma vez, não é indicada qualquer fonte para os dados usados.

Emissões de CO2 e Poluição Atmosférica

Admitimos que – porque desprovido de uma indústria significativa – em comparação a outros, Moçambique não tenha uma pegada de carbono e poluição atmosférica elevadas (embora não possamos deixar de dizer que, porque não reguladas adequadamente, para as poucas indústrias que temos poluímos mais do que devíamos).

Foram usados para o ranking dados da Agência Internacional de Energia.

Tratamento de águas residuais e resíduos sólidos municipais

Estes dois critérios não sei como terão sido incorporados no caso de Moçambique e outros países como o nosso. No caso dos resíduos sólidos, por exemplo, a quantidade de lixo produzida por cada cidadão é, nos países desenvolvidos, calculada com a ajuda de quem gere esses serviços. Alguém acredita que há como saber ao certo quanto lixo produzimos nós em Moçambique?

E o modo como gerimos esse lixo? (Que é, por exemplo, bem diferente do modo como a Noruega e a Suécia o fazem) Não deveria ser igualmente indicativo do impacto que temos sobre o ambiente?

Desflorestação

Quanto à desflorestação, os dados usados estão claramente desfasados. Estudos mais recentes apontam para números bem diferentes e muito mais alarmantes.

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Resumidamente, a Moneysupermarket.com não é uma organização com know-how, competência e credibilidade para compilar este tipo de rankings. O ranking produzido é prova disso e é quase tão irresponsável quão a forma como a Agência Lusa (propositada ou inadvertidamente) fez dele notícia.

Muito nos orgulharia se um dia, com mérito e justiça, encabeçássemos a lista de países com menos impacto sobre o meio ambiente, mas a verdade é que um qualquer ranking ou estudo elaborado de forma minimamente inteligente e criteriosa contrariaria taxativamente os resultados ridículos da moneysupermarket.com.

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2 thoughts on “Moçambique NÃO É o país no mundo mais amigo do ambiente

  1. Paula Macucule diz:

    Não é tendo a vossa indignação. Pelo menos nos termos que é apresentada. Acho que deixando de lado a legitimidade da entidade que conduziu o estudo devemos analizar os factos tendo em conta o pressuposto. Facto é que, não importa a razão pela qual temos baixo consumo energético per capita ou baixa emissão de CO2, se estamos nessa fasquia então não temos como não ser os menos agressores do ambiente. Agora isso não retira o facto de ainda assim estarmos a agredir o ambiente. Concordo que o título da Lusa seja demasiado sensacionalista mas temos que dar mérito a agência britânica que não tem influência direta no editorial da Lusa.

    • JA diz:

      Prezada Paula, antes de mais, obrigada pelo seu comentário. Como sabe, vivemos na era da informação, onde abundam nos meios sociais todos os tipos de estudos, rankings e análises para corroborar praticamente qualquer teoria que se queira. Estudos que contradizem outros estudos não faltam. A nossa indignação é porque acreditamos que as agências de informação – principalmente as de certa credibilidade, como a Lusa – têm a obrigação de filtrar a informação que veiculam, para nem falar de escolher adequadamente um título que não seja falacioso. Este estudo foi, claramente, pensado tendo em conta o cenário dos países mais desenvolvidos, e não teve a menor preocupação em reflectir se os critérios escolhidos seriam adequados para os países do terceiro mundo. Em relação ao critério do impacto sobre o ambiente: o consumo de electricidade per capita pode até ser um bom critério para medir o impacto que os habitantes dos países desenvolvidos têm sobre o ambiente, porque praticamente todos têm acesso a este serviço, mas é até criminoso fazer o mesmo em países como Moçambique. Sim, podemos até ter um baixo consumo KWh/per capita, mas isso não espelha de nenhuma forma o impacto do nosso consumo energético. E as famílias rurais que usam carvão e lenha, por exemplo, e que representam uma fatia bem grande da nossa população? Isto é apenas um exemplo, e no nosso artigo elaboramos uma crítica resumida a cada um dos critérios usados. Achamos sim, que é preciso denunciar com toda a força estudos falaciosos como este, e que resultados “feitos” como este nunca deverão ser motivo de orgulho. Quem nos dera que fosse verdade! Não sendo, é extremamente perigoso compactuar com isto.

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